Identidade

Apesar dos trabalhos de Vera Bettencourt nos surpreenderem com uma nova e curiosa plasticidade, mais arrojada, nesta exposição a artista dá continuidade ao seu estilo figurativo-narrativo, impregnado de uma aura espirituosa. No entanto, é um estilo apresentado com maior profundidade e, inclusivamente, com certa melancolia.
Estes trabalhos, que conjugam temática e esteticamente crenças, lendas e poesia açorianas, nascem numa consciencialização plena da arte contemporânea. Mas, assumem-se como fruto da inata e singular riqueza, da percepção da realidade, por parte dos nativos açorianos. Há quem diga que lhes corre agua salgada nas veias!...
Na actual série, Vera Bettencourt revela sem dúvida, e mais consciente do que inconscientemente, a sua própria Identidade. Mais precisamente, a desmitificação, por parte de uma Identidade presente, de uma mais antiga, já apreendida.
Na pesquisa para uma teorização, o mais aproximada possível, do trabalho de Vera Bettencourt, foi encontrado um dialogo que, de certo modo, é exemplificativo da enigmática e fascinante linguagem que esta artista materializa no seu trabalho:
"(...), por favor, leve-me para um sitio mais solar, leve-me de volta às suas ilhas, por favor, tenhamos um outro sonho."
"Mas agora chegámos ao fim do meu sonho, é tempo de você voltar para os seus próprios sonhos"
"Até aos próximos Açores, Dacosta, gritei. Ele voltou-se e acenou-me com a mão. E nesse momento dei comigo num sonho só meu*"
Lourdes Athayde
* TABUCCHI, ANTÓNIO; "Sonhando com Dacosta"; António Dacosta; Livros Quetzal, S.A e Galeria 111; Lisboa; 1995.

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