Bowler Hat

O espectáculo Quidam, do Cirque do Soleil, apresenta o imaginário de uma menina, Zoe, criado pela necessidade de compensar o vazio causado pelo desprezo dos pais, que, entretidos com o seu lazer, tratam Zoe como se esta fosse um estorvo. Das simbólicas personagens do seu imaginário, que povoam e, consequentemente, dão vida ao espectáculo, destaca-se Quidam. Este é um individuo sem rosto, anónimo e misterioso, que tanto seduz Zoe para o maravilhoso, como para o inquietante e aterrador. Entre outros elementos, esta personagem é caracterizada por um "bowler hat" (chapéu de feltro), curiosamente partilhado com Zoe, como indicio de que entre Zoe e Quidam circulam as fantasias inatas de uma criança, assim como os medos oriundos do desconhecido, das questões por responder.
Para além da potencialidade de viagem, inerente ao meu trabalho através do seu carácter figurativo/narrativo, que absorve o espectador na decifração de cada composição, nesta serie é explorado o antagonismo entre o fantástico e o aterrador, sustentado pelo referido "bowler hat"de Quidam. Consequentemente, e ao contrário do que acontece com a série anterior, denominada "Ruby Slippers", o espectador não é convidado a envolver-se em momentos de doce fantasia, mas sim de crua realidade, ainda que jocosa, onde predomina a luxuria. São, então, expostos sentimentos como o abandono, a solidão, a tristeza e o medo, provocados pela relação entre figuras perversas e inconvenientes, como moscas, e figuras meigas e singelas, como animais e até seres humanos. Entre estes, surgem os sapos, como figuras intermédias, que, ao satisfazerem as suas necessidades, sugerem um desfecho espirituoso para todo o enredo apresentado na exposição.
Sair dos Açores foi uma necessidade tão premente como é regressar. Com esta exposição, o Museu de Angra do Heroísmo reúne, de forma muito gratificante, o que há de compensador nestas duas exigências.
Vera Bettencourt

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