Bowler Hat (In Transit)

"Bowler Hat (In Transit)" apresenta um conjunto de quadros que atrai o olhar do espectador pela frescura exuberante das suas cores e pela candura triste que se desprende dos contornos lineares das figuras.
Tal como em anteriores exposições, também aqui Vera Bettencourt se centra numa pequena heroína, ilustrando, numa linguagem muito próxima da simbólica dos contos de fadas, o seu percurso vital de maturação e individuação.
Em "Ruby Slippers", o projecto anterior da artista, os sapatinhos vermelhos de Dorothy do Feiticeiro de Oz deambulavam pelas telas numa itinerância labiríntica que metaforizava o processo de crescimento e descoberta do eu vivido por qualquer adolescente. "Bowler Hat (In Transit), por seu turno, narra a viagem de Zoe, a protagonista feminina do espectáculo Quidam exibido pelo Cirque do Soleil.
Zoe é uma menina triste negligenciada pelos pais, exauridos pelo esforço de manter uma imagem social de esfuziante prosperidade que mascare de forma verosímil a sua vivência conjugal desarmónica. Quidam é o dono do chapéu de coco que dá título à exposição, o companheiro que Zoe vai encontrar e que faz com que "Bowler Hat (In Transit)" seja uma história com final feliz.
De facto, é precisamente o cunho narrativo que torna esta exposição tão única, tão apelativa e tão afectivamente envolvente. As mesmas figuras repetem-se, quadro após quadro, numa coerência discursiva que o espectador é compelido a descobrir. Cada tela assume-se, então, como uma página que acrescenta novos traços caracterizadores às personagens e soma uma outra sequência à integra. O desafio que resta ao espectador é, pois, o de nomear os caracteres e de encontrar o fio narrativo.
Esta tarefa de reconstituição é facilitada pelas legendas inscritas nas obras que permitem identificar as figuras parentais, cujo zumbido afectado assola as noites de Zoe, impedindo-lhe o sono reparador. Por seu turno, a imensa desolação do cãozinho melancólico e da gatinha triste remetem para a solidão da protagonista perplexa com o despertar da sua sexualidade.
Tal como nos contos, esta é porem, como já referi, uma historia com final feliz. A descoberta do outro traz consigo a alegria que transfigura a noite e, nesse círculo protector e garrido traçado pelas asas amigas das borboletas, a menina, que se julgava sapinha feia, faz-se mulher perfeita, graças ao milagre que é o amor.
Ana Lúcia Almeida

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