Identidade (2)

A UM CONSTRUTOR DE BARCOS QUE FOI MEU PAI *
(Poema de Urbano Bettencourt)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
2010
Colecção do Museu da Graciosa

DORME VELHA
(Poema de José Berto)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
2010
Colecção da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa

MARIA
(Poema de José Berto)
Técnica mista sobre tela
70x100cm
2010
Colecção Vantag

MARIA II
(Poema de Manuel Jorge Lobão)
Técnica mista sobre tela
130x100cm
2010

MARIA III
(Poema de José Berto)
Técnica mista sobre tela
130x100cm
2010
Colecção de Arquipélago - Centro de Arte Contemporânea

MARIA IV *
(Poema de Manuel Jorge Lobão)
Técnica mista sobre tela
70x100cm
2010
Colecção de Arquipélago - Centro de Arte Contemporânea
* Imagem do trabalho ainda por finalizar.

Identidade (2)

Visitar uma exposição de Vera Bettencourt é ter a impressão de entrar num livro de histórias. A abordagem discursiva que preconiza é essencialmente narrativa e o tratamento uniforme e exuberante da cor, a anulação dos volumes, a dimensão precisa dos contornos que caracterizam a sua pintura estão muito próximos da linguagem figurativa dos comics.

Não é recente a ligação de Vera Bettencourt às histórias tradicionais, pelo que não é de admirar que escolhesse para tema destes seus últimos trabalhos as lendas açorianas e que os povoasse de vozes de poetas como Antero de Quental, Natália Correia, Urbano Bettencourt, Manuel Jorge Lobão e José Berto.

O que acontece, porém, é que esta opção não é inócua e o que se verifica é que, devido a essa migração da escala individual para a dimensão colectiva insular, a pintura de Vera Bettencourt sai contaminada por uma espécie de amarga desolação, que lhe era alheia. É que, nas séries anteriores, a lógica era a dos contos de fadas, em que o percurso da heroína é individual e se faz sempre no sentido da realização pessoal, dependente da ligação ao outro, tal como a fórmula

«e foram felizes para sempre.»

exultantemente programa. Ora o funcionamento das lendas é bem outro, já que estas remetem para o real e para a história colectiva.

As lendas liberam sentimentos de mistério desencadeados por acontecimentos perturbadores da vivência comum, revestindo-os muitas vezes duma dimensão fantástica, mas não resolvem a angústia que, nas mais das vezes, lhes é inerente, por não lhes atribuírem uma lógica pedagógica ou moralizadora. Daí, talvez, que as telas de Vera escureçam e os fundos se esfumem, perdendo a nitidez segura que uma única cor compacta lhes costumava atribuir.

Os quadros que perfazem a série Identidade são perturbadores, angustiantes, como se ao atravessar a fronteira de si e ao avançar para o domínio do colectivo, a dor, a solidão, o medo fossem minando o colorido da ilha íntima. Há procissões de mulheres desvairadas, barcas fantasmagóricas de marinheiros perdidos, amantes esvaindo-se em choro, olhos esbugalhados de terror, bocas esburacadas de pânico. Os demónios que acossam as gentes estão próximos, brincalhões e dançantes, à maneira vicentina. Mas o auxílio implorado, esse faz-se esperar. Antero glosa o desespero comum face ao silêncio divino, argumentando de forma pungentemente lógica a certeza desse amor lamentavelmente ausente. Veja-se como, no Salmo, a passagem do tempo é jocosamente marcada apenas ao nível do celestial, pela presença do avião, já que hoje como ontem, «Deus tapou com a mão a sua luz. E ante os homens velou a sua face».

Curiosamente no quadro Maria II verifica-se um retorno às cores vibrantes e à ambiência garrida das telas das exposições anteriores, como se à semelhança da «encantada» também a pintora se esforçasse por se libertar dessa herança de lamentos que a atabafam de pranto.

Tal como afirma Lourdes Atayde, «(A) actual série, revela sem dúvida, e mais consciente do que inconscientemente, a sua própria Identidade. Mais precisamente, a desmitificação, por parte de uma Identidade presente, de uma mais antiga, já apreendida.»

Lendas populares, versos de poetas, imagens do perfeito presépio da paisagem, marcas da carga histórica, épica e mística insulares, fundem-se nesta tormentosa Identidade, constituindo uma amálgama em que se intui um sentir simultaneamente plural e íntimo, já que não se nasce nunca impunemente em praias açorianas.

Ana Lúcia Gonçalves Almeida,

Angra do Heroísmo, 27 de Outubro de 2010

Identidade

Visão (Soneto de Antero de Quental)
Técnica mista sobre tela
100x60cm
2009
Velut Umbra (Soneto de Antero de Quental)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
2009
Tormento do Ideal (Soneto de Antero de Quental)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
2009
Salmo (Soneto de Antero de Quental)
Técnica mista sobre tela
100x120cm
2010
Mãe Acto Único Absoluto (Poema de Natália Correia)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
2010
Colecção de Arquipélago - Centro de Arte Contemporânea
Lamento (Soneto de Antero de Quental)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
 2009
A Sua Santidade (Poema de José Berto)
Técnica mista sobre tela
100x130cm
2010

Identidade

Apesar dos trabalhos de Vera Bettencourt nos surpreenderem com uma nova e curiosa plasticidade, mais arrojada, nesta exposição a artista dá continuidade ao seu estilo figurativo-narrativo, impregnado de uma aura espirituosa. No entanto, é um estilo apresentado com maior profundidade e, inclusivamente, com certa melancolia.
Estes trabalhos, que conjugam temática e esteticamente crenças, lendas e poesia açorianas, nascem numa consciencialização plena da arte contemporânea. Mas, assumem-se como fruto da inata e singular riqueza, da percepção da realidade, por parte dos nativos açorianos. Há quem diga que lhes corre agua salgada nas veias!...
Na actual série, Vera Bettencourt revela sem dúvida, e mais consciente do que inconscientemente, a sua própria Identidade. Mais precisamente, a desmitificação, por parte de uma Identidade presente, de uma mais antiga, já apreendida.
Na pesquisa para uma teorização, o mais aproximada possível, do trabalho de Vera Bettencourt, foi encontrado um dialogo que, de certo modo, é exemplificativo da enigmática e fascinante linguagem que esta artista materializa no seu trabalho:
"(...), por favor, leve-me para um sitio mais solar, leve-me de volta às suas ilhas, por favor, tenhamos um outro sonho."
"Mas agora chegámos ao fim do meu sonho, é tempo de você voltar para os seus próprios sonhos"
"Até aos próximos Açores, Dacosta, gritei. Ele voltou-se e acenou-me com a mão. E nesse momento dei comigo num sonho só meu*"
Lourdes Athayde
* TABUCCHI, ANTÓNIO; "Sonhando com Dacosta"; António Dacosta; Livros Quetzal, S.A e Galeria 111; Lisboa; 1995.

Bowler Hat (In Transit)

They Stuck On You
Acrílico sobre tela
97x130cm
2008
Colecção da Academia das Artes dos Açores
The Target
Acrílico sobre tela
100x130cm
2009

Bowler Hat (In Transit)

"Bowler Hat (In Transit)" apresenta um conjunto de quadros que atrai o olhar do espectador pela frescura exuberante das suas cores e pela candura triste que se desprende dos contornos lineares das figuras.
Tal como em anteriores exposições, também aqui Vera Bettencourt se centra numa pequena heroína, ilustrando, numa linguagem muito próxima da simbólica dos contos de fadas, o seu percurso vital de maturação e individuação.
Em "Ruby Slippers", o projecto anterior da artista, os sapatinhos vermelhos de Dorothy do Feiticeiro de Oz deambulavam pelas telas numa itinerância labiríntica que metaforizava o processo de crescimento e descoberta do eu vivido por qualquer adolescente. "Bowler Hat (In Transit), por seu turno, narra a viagem de Zoe, a protagonista feminina do espectáculo Quidam exibido pelo Cirque do Soleil.
Zoe é uma menina triste negligenciada pelos pais, exauridos pelo esforço de manter uma imagem social de esfuziante prosperidade que mascare de forma verosímil a sua vivência conjugal desarmónica. Quidam é o dono do chapéu de coco que dá título à exposição, o companheiro que Zoe vai encontrar e que faz com que "Bowler Hat (In Transit)" seja uma história com final feliz.
De facto, é precisamente o cunho narrativo que torna esta exposição tão única, tão apelativa e tão afectivamente envolvente. As mesmas figuras repetem-se, quadro após quadro, numa coerência discursiva que o espectador é compelido a descobrir. Cada tela assume-se, então, como uma página que acrescenta novos traços caracterizadores às personagens e soma uma outra sequência à integra. O desafio que resta ao espectador é, pois, o de nomear os caracteres e de encontrar o fio narrativo.
Esta tarefa de reconstituição é facilitada pelas legendas inscritas nas obras que permitem identificar as figuras parentais, cujo zumbido afectado assola as noites de Zoe, impedindo-lhe o sono reparador. Por seu turno, a imensa desolação do cãozinho melancólico e da gatinha triste remetem para a solidão da protagonista perplexa com o despertar da sua sexualidade.
Tal como nos contos, esta é porem, como já referi, uma historia com final feliz. A descoberta do outro traz consigo a alegria que transfigura a noite e, nesse círculo protector e garrido traçado pelas asas amigas das borboletas, a menina, que se julgava sapinha feia, faz-se mulher perfeita, graças ao milagre que é o amor.
Ana Lúcia Almeida

Bowler Hat

Darkness
Acrílico sobre tela
100x120cm
2008
Fall Asleep
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008

Fuck Your Fears!
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008

Honeymoon
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008

Living On Stupid Circles
Acrílico sobre tela
80x120cm
2008

Mum Dad!
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008
Colecção do Museu de Angra do Heroísmo

Suckers
Acrílico sobre tela
100x120cm
2008

Sunshine
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008

Wake Up
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008
What Was Left
Acrílico sobre tela
100x130cm
2008
 

Bowler Hat

O espectáculo Quidam, do Cirque do Soleil, apresenta o imaginário de uma menina, Zoe, criado pela necessidade de compensar o vazio causado pelo desprezo dos pais, que, entretidos com o seu lazer, tratam Zoe como se esta fosse um estorvo. Das simbólicas personagens do seu imaginário, que povoam e, consequentemente, dão vida ao espectáculo, destaca-se Quidam. Este é um individuo sem rosto, anónimo e misterioso, que tanto seduz Zoe para o maravilhoso, como para o inquietante e aterrador. Entre outros elementos, esta personagem é caracterizada por um "bowler hat" (chapéu de feltro), curiosamente partilhado com Zoe, como indicio de que entre Zoe e Quidam circulam as fantasias inatas de uma criança, assim como os medos oriundos do desconhecido, das questões por responder.
Para além da potencialidade de viagem, inerente ao meu trabalho através do seu carácter figurativo/narrativo, que absorve o espectador na decifração de cada composição, nesta serie é explorado o antagonismo entre o fantástico e o aterrador, sustentado pelo referido "bowler hat"de Quidam. Consequentemente, e ao contrário do que acontece com a série anterior, denominada "Ruby Slippers", o espectador não é convidado a envolver-se em momentos de doce fantasia, mas sim de crua realidade, ainda que jocosa, onde predomina a luxuria. São, então, expostos sentimentos como o abandono, a solidão, a tristeza e o medo, provocados pela relação entre figuras perversas e inconvenientes, como moscas, e figuras meigas e singelas, como animais e até seres humanos. Entre estes, surgem os sapos, como figuras intermédias, que, ao satisfazerem as suas necessidades, sugerem um desfecho espirituoso para todo o enredo apresentado na exposição.
Sair dos Açores foi uma necessidade tão premente como é regressar. Com esta exposição, o Museu de Angra do Heroísmo reúne, de forma muito gratificante, o que há de compensador nestas duas exigências.
Vera Bettencourt

Where Is My Mind?

Ruby Slippers #290807
Acrílico sobre tela
70x100cm
2007
Colecção do Museu de Angra do Heroísmo
Where's White Rabbit's Watch?
Acrílico sobre tela
70x100cm
2007


Back From Wonderland?
Acrílico sobre tela
70x100cm
2007

The Day I Met Dorothy
Acrílico sobre tela
80x120cm
2007

Self-Portrait
Técnica mista sobre papel
71x100cm
2007

Out Of My Mind
Técnica mista sobre papel
71x100cm
2007
Colecção do Museu de Angra do Heroísmo
The End!
Técnica mista sobre papel
71x100cm
2007

 

Where Is My Mind?

A exposição "Where Is My Mind?" apresenta os trabalhos que dão inicio ao meu projecto Ruby Slippers, que assume a conotação mágica destes sapatos enquanto usados pela Dorothy do filme The Wizard of Oz.
Apresentando o meu tema de uma forma bastante sucinta, é com base nessa conotação que subordino telas a viagens físicas e mentais.
O meu método de representação é de carácter ilustrativo e a figuração resultante remete para o desenho infantil, de modo a assumir o imaginário de fantasia evocado por cada uma dessas viagens. No resultado final, os meus trabalhos apresentam: percursos a desvendar; elementos que nos são familiares e contribuem para descodificar, mas, também, adocicar o enredo; títulos subjectivos; e um carácter de jogo.
O facto de me ter sido apresentado o trabalho a expor pela Alex Mitchell, antes de eu ter dado o meu por concluído, e por este possuir uma temática muito próxima da minha, não me foi indiferente. Por isso, e como também possui a potencialidade das viagens em que me foco, nas ultimas telas, apropriei-me de algumas das suas personagens e sentimentos. Dessa forma, encadeei os meus trabalhos com os da Alex, ficando uma possível chave, para desvendar os enigmas que construí, nos trabalhos desta artista.
Tudo isto, resultado de construções pessoais muito gratificantes, com o propósito de absorver o espectador e de lhe proporcionar um momento de doce fantasia, onde a sua mente pode viajar por uma realidade distinta daquela em que se encontra.
Vera Bettencourt

Colectiva ao 8itavo mês

Ruby Slippers#170707
Acrílico sobre tela
97x130cm
2007

Fast Forward ’07

New York
Acrílico sobre tela
130x97cm
2007
6 de Abril de 2003
Acrílico sobre tela
60x120cm
2004
Era Uma Vez!
Acrílico sobre tela
60x100cm
2004
 

Fast Forward ’07

Submeto a arte à exteriorização de vivências adquiridas em viagens, transpondo-as para a tela através de uma técnica rigorosa que organiza, cuidadosamente, todos os elementos compositivos. As figuras ou esquemas resultantes destas composições, têm o intuito de transportar o expectador para o lugar representado, para que este também usufrua dessa viagem. No entanto, não quero que o faça de uma forma banal. Por isso, utilizo símbolos que, para além de possuírem a capacidade de captar a sua atenção, o fazem cair num agradável mundo de fantasia.
Vera Bettencourt

Arte Lisboa 06 – Feira de Arte Contemporânea

The Places Where We Met
Acrílico sobre tela
120x97cm
2006
Colecção da Galeria Pedro Serrenho - Arte Contemporânea

Itinerários de Disseminação

Tóquio
Acrílico sobre tela
70x100cm
2006
Colecção da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa
Lisboa-Tóquio
Acrílico sobre tela
100x70cm
2006

Tóquio-Quioto
Acrílico sobre tela
70x100cm
2006


Itinerários de Disseminação

(...) "Toda a viagem inicia-se sempre antes da partida e não termina com a chegada. É este excedente de intensidade, que todo peregrinar suscita, que Vera Bettencourt organiza na superfície da tela. Assim sendo, coexistem neste inventário de viagem, o esboço prévio, o itinerário mínimo mas necessário para acometer a empresa e as lembranças do imprevisto, das descobertas, que a movimentação pelo percurso promove. As cores, os planos, as linhas, as letras e as ilustrações, apesar do seu manifesto e transparente esquematismo gráfico, são, deste modo, a pulsão de signos "em transito". (...)"
Augusto Carvacho

Exposição de Finalistas de Pintura da FBAUL 2004/2005

Deep Night Club
Acrilico sobre tela
60x120cm
2004